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Entrevistamos João S. O. Bueno Calligaris Tradutor e Desenvolvedor do GIMP

Matéria publicada na edição nº0 do GIMPZINE (Junho 2006)
Por Anderson Prado (AndeOn)

GIMPZINE - Qual sua Formação?

João S. O. Bueno Calligaris - Tenho Técnico de Processamento de dados, meio curso de física, e sou licenciado em Pedagogia.

GIMPZINE - Como foi e quando surgiu seu interesse de trabalhar com Software Livre? E em particular com GIMP?

João S. O. Bueno Calligaris - Gostar de software livre acho que é algo natural para todo mundo que entende o que é. A noção de que idéias podem ser compartilhadas e todo mundo sai ganhando com isso (e ninguém fica com menos, como acontece quando se compartilha uma maçã) é bem clara. Então, em 1997 um amigo, o Eduardo Maçan me explicou por instant messaging os conceitos de Software Livre.

Na época a instalação de um desktop GNU/Linux podia ser um pouco complicada ainda - mas assim que consegui resolver a minha, não olhei muito para trás. Na verdade, também já fazia tempo que eu não gostava da empresa que monopolizava o desktop dos PC's, pelo simples motivo de ser um monopólio que trazia um produto de péssima qualidade.

Dai, depois de um tempo como usuário de Software livre, resolvi que seria legal eu adotar um projeto com o qual eu pudesse tentar contribuir. Como sempre trabalhei bastante com imagens, escolhi o GIMP.

GIMPZINE - Como tradutor oficial do GIMP para português do Brasil, como estão os projetos em que está envolvido, em termos de estrutura, organização e de pessoal?

João S. O. Bueno Calligaris - Só lembrando que manter a tradução de qualquer software livre é uma tarefa voluntária, então é estranho falar em "oficial" - do GIMP eu mantenho a tradução sim, mas para qualquer projeto, em que se queria colaborar, é só buscar as informações, isso não é difícil.
A tradução do GIMP pode ser mantida por uma pessoa só, mas sempre é bom contar com gente que possa avisar dos erros, que invariavelmente acabam escapando.Uma coisa que pode contar com mais gente é a tradução do manual - veja abaixo.É difícil falar de "outros projetos em que eu esteja envolvido" - contribuo um pouco diretamente com código para GIMP, e bastante para a comunidade de desenvolvedores. Há alguns outros programas em que metia colher na tradução, mas meio em "regime de emergência" - não me considero envolvido com os mesmos.

GIMPZINE - O Manual do GIMP esta traduzido nas linguas Alemão, Francês, Chinês, Sueco, Italiano etc , você tem planos para o Manual como a comunidade pode ajudar, já que o manual em tese depende dos termos empregado pela sua tradução?

João S. O. Bueno Calligaris - O maior problema para a tradução do manual hoje é a forma como os arquivos ficam: são arquivos XML que contém o texto de todas as línguas em que existe o manual, de forma simultânea. Os arquivos são divididos por tópicos. então, uma coisa é você pegar um arquivo e ter o mesmo parágrafo lá repetido 6, 7 vezes. Outra coisa é o mesmo arquivo se ele tiver 15, 40, ou 60 línguas diferentes (O GIMP hoje tem tradução, pelo menos parcial, para 57 línguas)

O fato é que com 6 ou 7 línguais já fica meio difícil de edita-lo, daí não existirem hoje mais traduções do manual.

No entanto há algumas pessoas que se propuseram a colaborar com a tradução do manual. Estamos concentrando esses esforços numa página do Wiki do próprio GIMP
http://wiki.gimp.org/gimp/TraducaoBrasileira e na lista de discussão gimp_traducao@yahoogroups.com

- Quem quiser colaborar pode, além de participar desses dois recursos, participar também da lista oficial de documentação do GIMP: gimp-docs@lists.xcf.berkeley.edu
O projeto anda meio parado - também por culpa minha. Não incentivei o pessoal a aprender a trabalhar direto com o CVS e concentrei demais a coisa em mim. Mas pode começar a andar a qualquer momento.
Na verdade, eu andei abordando o problema mais fundamental, acima, de todas as línguas ficarem em um só arquivo. Hoje estão no CVS do manual uns scripts que fiz que permitem que o arquivo seja separado em menos línguas, por exemplo, só deixando o Português e o Inglês, editado nesta forma, e em seguida juntado de volta ao arquivo original. Mas a própria estrutura do manual anda sendo discutida pelos mantenedores do mesmo e talvez venha a mudar nos próximos meses.

GIMPZINE - Você também é administrador do sistema Rau-Tu de perguntas e respostas sobre GIMP como é gerenciar um Suporte on-line tão popular e qual a importância dele para a comunidade?

João S. O. Bueno Calligaris - Na verdade o rau-tu não recebe tanto público assim. Algumas perguntas são feitas lá - existem cerca de 20 colaboradores cadastrados, mas ultimamente nenhum tem se manifestado para responder as perguntas.
Quem souber usar o gimp razoavelmente bem está, claro, convidado para ser um colaborador do rau-tu também: http://www.rau-tu.unicamp.br/gimp/ O sistema rau-tu tem algumas coisas boas, mas uma grande desvantagem também: cada pergunta só comporta uma resposta, então se dois colaboradores resolvem responder a mesma pergunta - e é quase certo que num caso desses os dois colocariam pelos menos algumas idéias independentes e originais em suas respostas, apenas a primeira pessoa que começa a responder tem sua resposta cadastrada no sistema.
O rau-tu em si é também um projeto de software livre, e poderia receber apoio de pessoas que saibam PHP. Acrescentar ao sistema a possibilidade de múltiplas respostas seria algo interessante.

GIMPZINE - Quais são os problemas mais comum encontrados na adoção do GIMP por Usuários Desktop e Usuários Corporativos na sua Opinião?

João S. O. Bueno Calligaris - Por estranho que isso possa soar para usuários de sistemas livres como o GNU/Linux, hoje a maior parte dos usuários do GIMP está no Windows. Gente que vem em busca de um programa "grátis" e encontra o GIMP - poucos desses compreendem que a idéia de Software Livre vai muito além do grátis.

O maior número de reclamações que recebemos é de por que não fica tudo numa janela só. Bom...o Photoshop original, do MacIntosh, nunca ficou numa janela só também. Os desenvolvedores do GIMP não consideram esse modelo conveniente. O conveniente é deixar um desktop virtual só para o GIMP. Só que o Windows não dispõe nativamente de desktops virtuais - então a pessoa tem que conviver com as janelas do GIMP em meio a seu navegador e leitor de e-mails, por exemplo.
Passado esse problema, ai sim entram algumas limitações do GIMP - a principal hoje é que não existe uma forma de se trabalhar usando perfis de cores. Em geral o pessoal vem correndo pedir o popular "CMYK" que é o modelo de 4 cores de tinta usado para impressão. Mas na verdade, não faz muito sentido trabalhar em CMYK. Algumas pessoas "viciam" nisso devido a disponibilidade em outras ferramentas.
Podemos até falar em trabalhar em CMY - mas com CMYK temos cores que se "sobrepõe" no espaço RGB que é usado nos monitores.

Perfis de cores sim - uma vez calibrados, permitem que a mesma cor que você vê no monitor seja a mesma cor que será obtida na impressão jato de tinta, e na gráfica, em offset. Isso é o que importa, e essa funcionalidade vai ser implementada na próxima versão já - a 2.4. Isso deve permitir o uso do gimp como ferramenta gráfica profissional, sem a necessidade de pós-processar seus arquivos numa ferramenta proprietária.
Outra funcionalidade muito pedida é a capacidade de trabalhar com imagens com mais que 8 bits de cor por plano. Muitas das máquinas fotográficas digitais permitem hoje o acesso a imagens com até 16 bits de cor por plano, e isso pode fazer uma diferença significativa em imagens com muitos tons escuros, ou muitos tons próximos do branco, por exemplo.

GIMPZINE - Sabemos que você também desenvolve como é este seu trabalho e quais dicas você daria para quem quer começar a contribuir com o GIMP e o SL em geral?

João S. O. Bueno Calligaris - Para se integrar a qualquer projeto, é importante participar da comunidade que o desenvolve. Outra aproximação é pegar o aplicativo e estudar o código, e tentar participar diretamente enviando pacthes.
Existem muitos projetos de Software Livre que são tocados por uma única pessoa, ou um pequeno núcleo de 2 ou 3 pessoas.
Uma dica para quem quiser tentar a mão diretamente no desenvolvimento, é procurar algum bug cuja correção seja mais ou menos fácil, e tentar arruma-lo. Os bugs do GIMP são mantidos em bugzilla.gnome.org.

Uma outra coisa fundamental: inglês.

A língua franca na internet hoje é o inglês. Ele é ao menos "lido" por todos os programadores e desenvolvedores de grandes projetos de software livre hoje. Dá para manter a tradução da interface e até da ajuda em várias línguas. mas a documentação para desenvolvimento está toda em inglês, qualquer pessoa que você quiser contatar para ter tirar dúvidas vai falar inglês, e assim por diante. Quem está defasado em inglês e quer contribuir com projetos internacionais de Software Livre, vale a pena fazer uma pausa na programação e estudar um pouco a língua.

GIMPZINE - Como Empresas ou usuários podem contribuir financeiramente para ter funcionalidades no GIMP? Mas como as mesmas entrem na versão e não vire fork ou que a contribuição não funcione apenas numa unica versão?

João S. O. Bueno Calligaris - Da mesma forma que podem pedir um trabalho em software de qualquer outra categoria: contratar uma empresa especializada, ou desenvolvedores individuais, que possam fazer as modificações necessárias.

O GIMP hoje é mantido por uma série de pessoas, nenhuma das quais recebe em tempo integral, ou mesmo parcial, para trabalhar no GIMP.
Algumas dessas pessoas trabalham individualmente em diversos projetos de informática e podem ser contatadas para alterações específicas no GIMP - eu mesmo, por exemplo.
O interessante é que como o desenvolvimento depende fundamentalmente da internet, você pode contratar um desenvolvedor em qualquer lugar do mundo.
Uma alteração que não seja controversa, por exemplo, a simples adição de novas funcionalidades, será incorporada ao programa com um mínimo de interação com a comunidade, através dos canais acima. Em particular, do bugzilla - lá você pode "solicitar" uma funcionalidade para o GIMP, e já colocar o código proposto para sua implementação em seguida.
Os desenvolvedores então entrarão em contato com comentários sobre a funcionalidade e o seu código, e após alguma revisão o código é integrado ao programa.
Ë claro que se você simplesmente contratar um desenvolvedor ou empresa que não está acostumada ao modelo do Software Livre, vai ter que supervisionar o trabalho e forma que essa integração aconteça, preferencialmente entrando em contato com a comunidade de desenvolvedores pessoalmente.

GIMPZINE - Existem muitas funcionalidades a serem implantadas na lista dos desenvolvedores?

João S. O. Bueno Calligaris - Sim!
O que não temos é desenvolvedores com tempo para implantar todas elas.
De concreto, na versão de desenvolvimento do GIMP, algumas coisas principais, como a re-estrutuação das ferramentas de seleção retângular, elíptica e de corte, a adição de uma ferramenta nova para seleção de objetos em uma cena (SIOX), a inserção dos perfis de cor e um novo algorítmo para transformações como ampliação, rotação, etc... Este último tem alguns defeitos, e a não ser que apareça alguém para concerta-lo antes da próxima versão estável, talvez seja removido.
Entre coisas propostas para a próxima versão, mas que talvez não vejam a luz do dia já são a possibilidade de editar texto com vários atributos num mesmo bloco, travar a posição e conteúdo de camadas, hmm.. eu poderia pensar mais um pouco e colocar uma lista bem grande aqui. O fato de todos os desenvolvedores trabalharem como voluntários atrapalha muitas boas idéias dentro do GIMP.

GIMPZINE - Você participou da convenção de desenvolvedores www.libregraphicsmeeting.org poderia resumir o que aconteceu por lá, quais são as novidades para a comunidade?

João S. O. Bueno Calligaris - Essa foi a primeira vez que uma tal convença foi realizada. Em vez de simplesmente se fazer uma reunião dos desenvolvedores do GIMP, a GimpCon - como aconteceu nos outros anos - as vezes dentro de um evento maior, como a Guadec, este ano, por inciativa do David Neary (Bolsh), da França. Então ele organizou por lá a Libre Graphics Meeting - LGM - uma convenção reunindo os desenvolvedores de alguns dos principais Softwares Livres que tratam de gráficos.
Nesta edição, que ocorreu em Lyon, na França, estavam presentes desenvolvedores do GIMP, Inkscape, Scribus, Blender, Xara (um software anteriormente fechado, mas que está abrindo seu código), Krita e talvez mais alguns. Não é um evento para reunir muita gente, como são o FISL e o Latinoware aqui no Brasil. Existem palestras públicas sim, mas o público era formado pelos desenvolvedores em si, e pessoas da própria faculdade onde foi o evento, no máximo de cidades próximas. Claro que o evento era aberto a qualquer um - só não era a ênfase do mesmo. Então, nas conversas entre os desenvolvedores do GIMP que aconteceram lá tentamos objetivar ao máximo duas coisas:

1) O que falta para a versão que está em desenvolvimento se tornar estável - que funcionalidades incluir, que correções fazer, uma idéia do cronograma e por ai vai...

2) O que fazer logo depois que esta versão estiver pronta: iniciar integração com a GeGL, e partir daí começar a mudar até alguns paradigmas da ferramenta....

Pode parecer pouco - mas são conversas que renderam muito mais com
todo mundo se olhando de frente, e conversando, do que a comunicação eletrônica poderia ter propiciado.
E além do GIMP em si, a idéia da LGM era ver oque os vários projetos tinham em comum, o que poderiamos trazer de em cojunto para o mundo dos gráficos livres. De lá nasceu uma iniciativa para integrar mais todos esses programas, para que possam em breve, por exemplo, compartilhar recursos. Assim, um degradê instalado no Inkscape poderia ser usado de dentro do GIMP, e outras coisas do tipo. Também está se discutindo a partir de lá um formato de arquivo gráfico unificado, o equivalente para gráficos dos arquivos Open Document Format utilizados hoje pelo OpenOffice 2 e o Koffice. Essas e outras discussões têm lugar na lista , criada a partir do evento. Esta lista também, está sendo utilizada para se organizar a 2a LGM que no próximo ano deve ocorrer em Montreal.

GIMPZINE - A boatos que o GIMP esta muito próximo ao CMYK é verdade?

João S. O. Bueno Calligaris – Boatos.
Primeiro por que isso não é tão importante - veja a resposta à pergunta 8 acima - o importante são os perfis de cores. Na verdade, com a GeGL, é muito provável que um modelo de edição em CMYK seja suportado - mas isso ainda é para o depois do lançamento da versão que está em desenvolvimento agora.

GIMPZINE - O GIMP esta usando a nova biblioteca GeGL quais os ganhos que o GIMP obteve e obtera com ela?

João S. O. Bueno Calligaris – O GIMP ainda não usa a GeGL (Generic Graphics Library). A integração com a mesma que é o grande passo que deve começar a ocorrer logo após o lançamento da versão 2.4

A GeGL é uma biblioteca que permite que várias partes de uma imagem (partes com por exemplo camadas), sejam interligadas atráves de um "grafo". essa estrutura vai permitir uma flexibilidade muito grande ao programam e trazer quase de graça Grupos de Camadas e Camadas de Efeito, que são duas das funcionalidades mais pedidas hoje.
Com a GeGL também será possível ter imagens com outras profundidades de cor (16 bit) e outros modelos de cor (CMYK, L*a*b*) nativamente no GIMP, ao mesmo tempo que o código é mantido limpo.
Ela vai facilitar a implementação de várias funcionalidades, que variam de "as mais pedidas" até coisas estranhas mas com não tanta utilidade, e coisas que poderão vir a extrapolar qualquer coisa existente em programas de pintura - por exemplo, a possibilidade de se usar uma alimentação de vídeo para uma das camadas de uma imagem.
Tudo isso vai depender claro, da disponibilidade de desenvolvedores, voluntários ou subsidiados.

GIMPZINE - Fique livre para expor o que quiser.

João S. O. Bueno Calligaris – Bom, tem bastante coisa ai já...
Mas acho que uma das coisas mais importantes, que ficou meio dispersa no texto acima é: usem o bugzilla!
o Bugzilla é o chamado "tracker" de questões com o programa - desde problemas (bugs) na tradução ou no próprio programa, até o pedido de novas funcionalidades.
Vale a pena se familiarizar com essa ferramenta - em particular com as buscas para verificar se oq ue você vai pedir já está cadastrado lá - e então você adiciona o seu comentário, ou comenta alguma coisa da discussão vigente, ou mesmo, anexa um patch.

O Bugzilla e a forma mais objetiva e concreta de entrar em contato com os desenvolvedores para questões específicas, não só do GIMP, mas de quase todos os projetos de software livre. (Alguns tem outros modelos, por exemplo, pedem que os bugs sejam enviadospor um e-mail para uma lista). Ele dá aos desenvolvedores um retorno de como o programa é utilizado e dos principais problemas. Dessa forma, todos os que usam essa ferramenta estão colaborando com o desenvolvimento do programa, mesmo que não escrevam uma só linha de código.
Lembrar sempre do seguinte:

- O Bugzilla, assim como qualquer recurso de
Desenvolvimento, tem que ser usado em inglês! Isso implica em que inclusive o texto que você escrever lá tem que estar em inglês,

- Verificar se o assunto sobre o qual você vai escrever, seja um bug,
seja uma funcionalidade, já não existe no sistema,

- E por fim, o bugzilla não é um fórum de ajuda. Não devem ser feitas perguntas sobre como se usa o programa lá, ou como se consegue tal efeito. Para isso deve ser usado o rau-tu.

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