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Entrevistamos Mozart Couto

Matéria ilustrada publicada na edição nº1 do GIMPZINE (Setembro 2006)
Por Anderson Prado (AndeOn)

GIMPZINE - Como você começou a carreira de desenhista?

Mozart Couto - Eu comprei numa banca uma revista de quadrinhos publicada em Curitiba, com 100% de produção de autores brasileiros, e nela estava aberto um espaço para novos quadrinhistas. Então enviei uma Hqs que tinha ( eu estava com 21 anos na época e desde os 16 fazia hqs de forma amadora), o editor gostou do meu traço e convidou-me a colaborar. Assim comecei e estou até hoje, 27 anos depois, produzindo.

GIMPZINE - Quais foram suas principais influências no início de sua carreira?

Mozart Couto - Quadrinhos americanos de Ficção Científica e de terror (Revistas “Creepy” e também a revista “1994”, que eram publicadas nos EUA; e um pouco de super heróis. Mas, desde que comecei a ler quadrinhos, já observava bem os estilos e gostava de vários gêneros, inclusive os nacionais, de Terror. Posso dizer que sempre tive uma influência bem diversificada.

GIMPZINE - Que conselhos daria para quem quer trabalhar como desenhista na área de quadrinhos?

Mozart Couto - Olha, para se ter uma base sólida mesmo, tem que aprender as técnicas convencionais de desenho, conhecer e explorar materiais, e praticar muito. Desenhar de tudo, já que para fazer quadrinhos a gente tem que saber desenhar muitas coisas diferentes tais como: arquitetura; máquinas; anatomia humana e de animais; roupas, vegetação... e por aí vai. Então, tem que ter uma base, pelo menos um conhecimento e uma prática razoável; agora, tem muita gente que não tem isso e consegue espaço em mercados cobiçados, valendo-se de artifícios (tipo: trabalhar utilizando fotos e/ou usando efeitos digitais que enchem os olhos de quem vê) que se encaixam nos modismos vendáveis. Então a coisa é até meio frustrante em certos casos mas o ideal mesmo é que a pessoa tenha uma base sólida pra não passar vergonha quando tiver que desenhar “ao vivo”, ou assumir um trabalho “pesado”, para provar que tem competência mesmo.
Eu diria, sintetizando, que é preciso ter paciência e perseverança, antes de tudo. E o talento nato, porque sem esse não dá.

GIMPZINE - E nas demais áreas que um profissional de desenho pode atuar os conselhos seriam diferentes?

Mozart Couto - Acho que seriam sempre os mesmos: estudo, perse-verança, prática... antes de tudo, tem que ter talento aquela percepção especial e a capacidade de passar para o meio utilizado o que está sendo percebido, somando-se a isso, a criatividade.

GIMPZINE - Em que editoras nacionais e internacionais você já trabalhou?

Mozart Couto - Nacionais trabalhei em quase todas que publicaram quadrinhos nacionais nos anos 80:
Grafipar (Curitiba); Vecchi (Rio de Janeiro); D'Arte (SP); Press Editorial (SP); Nova Sampa (SP);
Abril Cultural (SP); Escala(SP)... A maioria já fechou por causa das crises econômicas pelas quais nosso país passa há décadas e que dificulta muito um investimento a longo prazo em áreas como a dos quadrinhos.

GIMPZINE - Você trabalhou para editoras de quadrinhos famosas como a Marvel e DC qual o ganho que isto proporciona? Realmente existe prazos curtos e a muita exigências por lá?

Mozart Couto - Sinceramente, eu só passei stress. O único grande ganho que tive foi confirmar pra mim mesmo que eu não tinha nada a ver com aquele tipo de mercado e com o gênero de quadrinhos que publicam lá.
A maioria dá muito valor a isso, mas, como eu já aprendi que as coisas são muito relativas, não dou tanto valor assim.
Os prazos são curtos sim. Eu desenhava 24 páginas, em tamanho A3, super detalhadas, em menos de duas semanas. Não conseguia ter prazer trabalhando assim.
As exigências variam de editor para editor. Alguns trabalhos fluem com facilidade, outros podem ser mais complicados devido a essas exigências. Mas comigo isso foi raro.

GIMPZINE - Você também publicou na Europa, não? Foi diferente?

Mozart Couto - De certa forma sim porque lá, pode-se fazer coisas diferentes. O mercado é muito variado então é mais estimulante. Mas os prazos são apertados também. Eu desenhava as 48 páginas (lápis e arte-final), que compõem um álbum, em pouco menos de três meses.
Mas pude variar de estilo e vendi material meu (texto e desenhos de minha autoria), o que nos EUA seria praticamente impossível. Na Europa, é comum projetos pessoais serem aceitos e publicados por editores considerados “grandes” e por outros.

GIMPZINE - Você pensa em voltar a fazer quadrinhos?

Mozart Couto - Eu estou sempre fazendo quadrinhos junto a outros trabalhos na área de ilustração.
Terminei recentemente um álbum “Lolita Dominguez” que conta a história incrível da filha de uma prostituta cubana e de seu inescrupuloso pai, escrita pelo roteirista Wander Antunes, com quem já fiz um outro álbum - “Crônicas da Província”. Estou ainda produzindo, com Edgar Franco, a trilogia “BIOCYBERDRAMA”, que é uma aventura atualíssima sobre o destino da humanidade e as possibilidades para alguns meios reais de hibridização do ser humano com animais e máquinas; e ainda consigo sempre um tempo para tocar adiante“Vila do Ouro”, uma novela gráfica escrita e desenhada por mim e que se passa na Capitania das minas do ouro, as Minas Gerais no Século XVIII. Vale colocar aqui, que estou colorizando essa HQ no GIMP em breve, disponibilizarei na minha página um “preview” em PDF. Mas não penso em viver mais exclusivamente de quadrinhos. Mesmo porque não há mercado no Brasil para isso e não tenho o mínimo interesse em desenhar Comics, ou copiar mangás.

GIMPZINE - Que trabalhos você está fazendo ultimamente?

Mozart Couto - (pergunta respondida acima).

GIMPZINE - Você é um artista extremamente versátil. Sabemos que usa desde o tradicional lápis e papel e que também emprega o uso da tecnologia. Quais as vantagens e as desvantagens entre uma e outra?

Mozart Couto - Sem dúvida nenhuma, na arte digital, a maravilha das maravilhas chama-se “Ctrl+Z” (no PC e suas correspondentes no MAC). Mas é um drama se a gente tiver que escolher. Na arte tradicional, temos uma liberdade de visualização maior, não precisamos de estar plugados numa tomada nem gastar muito pra fazer coisas muito boas, porém, a informática veio pra mudar mesmo o mundo e suas possibilidades são infinitas. Eu ainda estou engatinhando na área, mas praticamente só trabalho com o sistema digital atualmente. Pela minha experiência, há detalhes e nuanças que obtemos com o uso de certos materiais que só conseguimos na arte convencional, e o mesmo acontece no sistema digital. Então, o negócio é usufruir dos dois meios, mas penso que o digital vai predominar daqui pra frente.

GIMPZINE - A tecnologia parece que dominou totalmente o mundo da animação, hoje vemos muitos desenhos em 3D, você acredita que isto ocorrerá com ilustração e quadrinhos?

Mozart Couto - Já acontece. E vem crescendo. Mas já vi casos de artistas que começaram no 3D e depois mudaram para a ilustração 2D digital. Eu particularmente, acho interessante mesclar os dois, ou seja: cenários, máquinas e algumas formas orgânicas em 3D com figuras humanas pintadas em 2d – porque eu acho muito feios os bonecos 3D, exceto quando se modela as figuras humanas, ou animais e vegetais, em softwares que permitem um trabalho bem detalhado, com mesa digitalizadora, tipo um Z-Brush. Mas acho muito trabalhoso e não me atrai, embora me impressione.

GIMPZINE - Quando foi que surgiu seu interesse de usar o Software Livre GIMP?

Mozart Couto - Eu tenho uma paixão por programas de edição de imagens,
e fico experimentando todos, então, um dia, achei o Gimp num site de downloads e baixei. A a partir daí, comecei a saber também sobre programas livres, Open Source, Linux, e fui gostando da idéia. Pensei assim: isso pode crescer muito e eu vou pegar a coisa relativamente no início, então vai valer a pena entrar nessa. E estou seguindo essa vertente, porque sempre gostei de idéias que diferem dos padrões estabelecidos como os únicos, os ideais.

GIMPZINE - Na sua opinião quais problemas que existe no GIMP para uso profissional?

Mozart Couto - Tem várias coisas: Ainda não se pode trabalhar em CMYK.
Deveria ser possível trabalhar melhor os textos melhorar o Free Type;
Ter mais recursos e sistemas amigáveis de criar formas e trabalhar com elas;
Faltam efeitos efeitos em layers (já instalei e utilizei um plugin interessante para isso, mas o programa tinha que ter isso nele mesmo.
Na minha área, Ilustração Artística Digital, eu diria que são problemas mais ligados a facilidade de uso de certas ferramentas para distorcer partes selecionadas de imagens; rotacionar sem perdas... e o fato de não podermos redimensionar e configurar melhor os pincéis nativos no GIMP é um problema seríssimo! Eu diria inaceitável para um programa como o GIMP. Isso tinha que ser resolvido o mais rapidamente possível! Mas tem muitas coisas que já estão prontas, ou seja: funcionam bem. A ferramenta “INK” (tinta) é algo excelente para desenhar. Com ela pode-se fazer arte-final em desenhos feitos a lápis e "escaneados". Acredito que com a implementação dos perfis de cores na versão 2.4, pelo menos o problema com o CMYK deve ser resolvido.
Penso que uma integração maior entre desenvolvedores e usuários (não sei no exterior como é isso) poderia ajudar muito às coisas evoluírem melhor. Penso que um programa desse tipo tem que ter a participação de ARTISTAS PROFISSIONAIS e EXPERIENTES que usam programas de tratamento de imagens junto com os programadores, porque esses não têm conhecimento artístico, e os artistas precisam deles para fazer acontecer as coisas na área da programação.

GIMPZINE - Você já imaginou uma funcionalidade que não existe nos programas proprietários nem nos livres da categoria que poderia ser implementada? “Pode inventar”.

Mozart Couto - Não, acho que nada novo; Teria que pensar melhor, com mais calma sobre isso, mas fico sonhando com um outro programa livre que trabalhasse como o Gimp, mas especialmente voltado para a Ilustração Digital artística, com pincéis realistas como os do Corel Painter; ou que fosse possível usar pincéis do tipo citado no próprio Gimp (melhor ainda). Aí é que eu penso parece que os desenvolvedores não atinam para isso que pode haver uma demanda nessa área porque não deve ser tão complicado assim fazer, já que atualmente tem aparecido vários programas “FREE”, para windows, feitos por uma pessoa só, às vezes, e que tem alguns pincéis superiores artisticamente até aos do Photoshop, que tem pincéis mais “simuladores” do que “reais”. Acho que o Gimp ainda não é levado suficientemente a sério pelos profissionais da ilustração 2D. O que vemos usualmente nos sites, são trabalhos de amadores ou usuários comuns que resolvem tudo muito bem com alguns cliques do mouse, então deixamos de antever as possibilidades imensas do programa.

GIMPZINE - O que você acha da filosofia do Software Livre? Você já sabe que livre não quer dizer grátis?

Mozart Couto - Sim, sei que há muita diferença entre essas duas expressões para quem está lendo essa entrevista e não conhece o assunto ou não se aprofundou ainda, acho que esses dois links são bons para se inteirar sobre o tema:
O que é software livre:
http://br-linux.org/linux/faq-softwarelivre
O que é Linux:
http://br-linux.org/linux/faq-linux
Como escrevi antes, eu gosto de coisas que fogem do convencional ,mas o ser humano acaba se enrolando e seguindo os mesmos vícios daquilo que queria fazer de modo diferente.
Eu acho extraordinária a idéia de você ser livre para usar e até modificar o programa que está utilizando. Penso que a pessoa que sabe atuar não só como usuário, mas como agente transformador do SO, ou dos programas usados nele, deve se sentir muito poderoso...e livre!
A idéia errada do “grátis”, a meu ver, atrapalha muito a filosofia da liberdade.
Penso que os usuários tinham que pensar em atuar mais, inclusive financeiramente, ajudando no desenvolvimentos dos programas, além de experimentar e sempre contribuir de alguma forma. Mas defendo também que ninguém deva ser obrigado a isso. Quem quiser ser só usuário, deve ter esse direito, e quem quiser aprofundar, já tem em mãos um sistema propício para isso. Aí é que eu acho o grande diferencial do Gnu/Linux e dos Open Source para os proprietários.

GIMPZINE - A outros softwares livres que você já experimentou ou esta usando no momento? O que você achou deles?

Mozart Couto - Eu tenho utilizado vários programas GNU/LINUX, no próprio Linux e utilizo também as versões para Windows, do Gimp; do Inkscape; BR-Office; Thunderbird; Firefox; Scribus... estou sempre mexendo num e noutro. Eu torço para que esse movimento cresça e se fortifique porém, acho que muitas barreiras devem ser quebradas ainda.

GIMPZINE - O que você achou sobre a iniciativa do GIMPZine?

Mozart Couto - Achei uma ótima. Quanto maior divulgação, melhor. Precisamos conhecer as pessoas ligadas ao Gimp, aprender mais e mais e o zine será um espaço muito bom pra isso. Espero que possa ter nele, mais tarde, um espaço para obras feitas no gimp, para o meio digital e para o impresso, contando entre elas Histórias em quadrinhos, cartuns, ilustrações, etc.

GIMPZINE - Fique livre para expor o que quiser.

Mozart Couto - Bom, vou preferir mostrar, com algumas imagens, o que o Gimp pode oferecer.

Descrição das imagens:

1-Auto-retrato, trabalhado sobre uma foto, utilizando-se pinceis nativos sobre um fundo onde foi aplicado o script-fu “efeito de tecido”. ( veja no inicio da Entrevista o Auto-retrato).

2-Utilização da ferramenta “Tinta”, sobre um desenho a lápis prévio, "escaneado" e utilizado como base (plano de fundo) no Gimp.

3- Três fazes de uma imagem (pintura digital) toda criada no Gimp, sem desenho prévio a lápis e "escaneado".

obs: A Entrevista contém imagens apenas na edição PDF.

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